Entre pressão e cautela, Brics reposiciona agenda global em Nova Délhi

A declaração conjunta divulgada pelo Brics em 12 de setembro de 2026 apresentou uma agenda que combina reivindicações políticas, preocupações comerciais e propostas de cooperação financeira. O documento foi publicado após a cúpula realizada em Nova Délhi, na Índia, e defendeu maior participação de países em desenvolvimento nas estruturas de decisão global.
O encontro reuniu Brasil, China, Rússia, Índia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Indonésia e África do Sul. Entre os principais pontos, os países criticaram o aumento de tarifas aplicadas de forma unilateral, defenderam a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e apoiaram mecanismos de pagamentos transfronteiriços em moedas locais.
Brasil busca espaço maior nas decisões da ONU
Na área diplomática, a declaração reforçou a posição do Brics favorável à ampliação da representação de países em desenvolvimento nas instituições internacionais. China e Rússia reiteraram apoio às aspirações do Brasil e da Índia por um papel mais relevante nas Nações Unidas, em uma sinalização de respaldo às duas candidaturas por maior influência no sistema multilateral.
O texto, porém, não defendeu explicitamente a inclusão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Essa diferença é relevante porque mantém a manifestação no campo mais amplo da reforma da governança global, sem formalizar uma proposta específica sobre a composição permanente do principal órgão responsável por decisões de segurança internacional.
Para o Brasil, o posicionamento representa espaço político para sustentar a defesa de uma ordem internacional com maior presença de países do Sul Global. A declaração não anuncia uma mudança imediata nas estruturas da ONU, mas registra o apoio de integrantes importantes do Brics à reivindicação brasileira por maior participação nas decisões multilaterais.
Crítica a tarifas e defesa de pagamentos em moedas locais
O comércio internacional também ocupou lugar central no documento. Os países do Brics criticaram o aumento de tarifas unilaterais, prática que pode elevar tensões entre parceiros comerciais e dificultar a previsibilidade das relações econômicas. A declaração expressa oposição ao uso de medidas tomadas isoladamente, sem apresentar, no entanto, uma lista de novas ações comerciais do grupo.
Outro eixo foi a defesa de mecanismos para facilitar pagamentos transfronteiriços em moedas locais. A proposta indica uma busca por alternativas operacionais nas transações entre os países do bloco, mas não equivale à criação de uma moeda própria do Brics. O documento também não propõe a substituição do dólar, ponto que delimita o alcance da iniciativa apresentada na cúpula.
Essa distinção evita interpretar a decisão como o lançamento de um novo sistema monetário. O que aparece na declaração é o apoio à construção de instrumentos de pagamento que possam ampliar o uso das moedas nacionais nas operações entre os integrantes, sem anúncio de uma moeda comum ou de ruptura com o dólar.
Oriente Médio entra na declaração com apelo à contenção
As tensões no Oriente Médio foram outro tema abordado pelos líderes. A declaração defendeu a contenção para evitar uma escalada do conflito, mas não citou diretamente os países envolvidos. A formulação mantém o foco em uma preocupação regional mais ampla e evita atribuir, no texto conjunto, responsabilidades específicas às partes do confronto.
A presença de Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita entre os participantes amplia a relevância desse trecho da declaração para a leitura política do encontro. Ainda assim, o documento divulgado após a reunião se limita a pedir cautela e a defender medidas capazes de impedir o agravamento das hostilidades, sem anunciar uma iniciativa de mediação ou um plano de paz.
Desigualdade também ganha espaço na agenda
A cúpula apoiou ainda a criação de um painel internacional sobre desigualdade, proposta apresentada pelo Brasil e pela África do Sul. A iniciativa amplia o escopo da cooperação do grupo para além de comércio, finanças e geopolítica, colocando a distribuição de renda e as diferenças sociais entre os temas discutidos em nível internacional.
Segundo a Agência Brasil, a declaração divulgada em Nova Délhi reuniu essas diferentes frentes em um mesmo posicionamento: reforma das instituições globais, reação ao avanço de tarifas unilaterais, cautela diante das tensões no Oriente Médio, pagamentos em moedas locais e combate à desigualdade.
O resultado é uma agenda que procura ampliar a influência política do Brics sem apresentar, neste momento, uma ruptura formal com os mecanismos financeiros existentes. Para o Brasil, os pontos mais diretamente relacionados à política externa são o apoio às aspirações por maior protagonismo na ONU e a participação na formulação de propostas sobre desigualdade e cooperação internacional.







